segunda-feira, junho 23, 2008

Taciturno

No cair da noite, o silêncio avança… como um manto negro e taciturno que se adensa à medida que conquista terreno… penso na vida… no passado…no presente que insiste em não gelar e continuamente transformar-se em passado… afinal, raios, o que é o presente? Só sei defini-lo como o momento entre o passado e o futuro… mas esse momento é tão único, tão frágil, tão inatingível que nem se pode dizer que exista… é um conceito… não passa disso… um axioma, uma hipótese que permite deduzir teorias ou realidades… para mim o presente não é nada… é um empecilho… algo inventado pelo homem que não tem a mínima utilidade… o que interessa fundamentalmente é o passado e o futuro… são estes que contam a história da vida de um homem… que lhe conferem corpo, consistência, matéria…. e o meu passado, o que conta? Sobretudo histórias que prefiro esquecer… histórias de confusão, de contos de crianças misturados com a amarga realidade… histórias que eclipsam o próprio passado… reduzem-no a cinzas… como a fenix… o senão…é que esta só tem uma vida, não renasce… basta pegar nessas mesmas cinzas, lança-las sobre a imensidão do oceano e rogar que essa infinitude de inexistência desapareça com elas… sirva de alimento aos peixes… e uma vez na vida, ou morte, neste caso…seja relevante na história de alguém...

quinta-feira, junho 19, 2008

Toques....

Sinto as mãos irrequietas... como se eu quisesse falar através delas mas não tivesse tempo ou elas não se conseguissem expressar... muitas vezes, as mãos expressam-se bem melhor que a boca... têm uma magia especial...o gesto, o tacto, a cor é algo insonoro... algo delicado, discreto... cheio de novas palavras à espera de ser inventadas, novos conceitos... conceitos que nem precisam dos grilhões da definição... e falam tanto mesmo quando querem estar caladas... revelam segredos, manias, temores, fobias... um mundo de coisas intangíveis... mas no entanto tão poderosas como uma muralha de betão... o inconsciente é a ferramenta mais poderosa que existe dentro de nós... indomável,incontrolável... e as mãos são uma das maiores janela para esse mundo.

sábado, junho 14, 2008

20080612

O vento sopra criando sombras com os ramos das árvores que dançam ao seu sabor... cria sombras chinesas que, como que brincando connosco, transformam as coisas mais simples, nas mais valiosas. A exuberância da natureza instila vida em tudo...nas pedras que, sob o sol, emanam um calor intenso... nas árvores que, de forma totalmente imprevisível, soltam pequenas flores que tocam a nossa pele, como que num gesto de carinho... oiço a água que corre, que inunda de energia a flora ao seu alcance... E em tudo isto, apenas um elemento contrasta, eu mesma... consigo sentir, consigo aperceber-me de toda a vida que me circunda, mas por alguma razão sou imune a ela... não sei se por escolha, se por destino, mas o meu ser é impermeável, estanque, frio... por isso só, triste e inatingível. E o tão vívido contraste entre o mundo que me rodeia e o meu ser só contribui para a minha total aniquilação... só me faz sentir mais estrangeira neste mundo... é como uma mancha negra de sujidade... distingue-se de forma muito mais intensa num tecido branco que num cinzento.
O que devo eu então fazer? Apartar-me da vida? Afastar-me dos passados, presentes e futuros, numa vã tentativa de fugir de mim mesma?
Entretanto a natureza não desiste, a vida não se rende... continua a deixar cair sobre o meu colo, coberto com um vestido branco, pequenas flores amarelas que são, ou eram, curiosamente, a minha cor predilecta em criança... uma... duas... três... já não consigo contar... alguém insiste em não me deixar indiferente...todos os dias tenta de diferentes formas... seguro, impassível, inquebrável... numa palavra, persistente... será ele mais que eu?

20080607

Posso afirmar que conheço bem Lisboa. Conheço as suas ruas, as suas avenidas, os seus costumes e festas. Mas será que alguma vez parei para a ouvir? Será que deixei que me contasse os segredos que encerra em sí? As histórias que as paredes, as calçadas, os lampiões guardam? Tanta história deve Lisboa conhecer...histórias de amor, de sofrimento, de conflitos, de pessoas…em suma. A natureza humana é das histórias mais ricas que existe. É extremamente complexa, extremamente condimentada...cheia de pimenta e açafrão. Séculos e séculos de pessoas certamente que deixaram marcas na cidade. Quem sabe se as ruas não são pavimentadas a esperanças e sonhos? Se as paredes não são pintadas da cor do amor, da amargura ou da alegria? E os cheiros, será que também esses contêm indelevelmente a nossa marca? A marca de desconhecidos, de anónimos cuja vida fica impregnada na cidade? E para os restantes animais? Como será Lisboa para eles? Será que tem o mesmo cheiro, a mesma textura, a mesma história? Ou é uma história completamente diferente, composta por elementos dos quais nem temos conhecimento?
E eu, que marca deixo em ti, Lisboa?

terça-feira, junho 03, 2008

Viver...



Quero viver numa fotografia…tirar uma fotografia minha e entrar lá para dentro… esquecer-me de mim… existir num pedaço de papel onde o tempo não passa, onde não há dilemas, onde não há alegria ou sofrimento excepto o que ficou registado…anseio por uma vida bidimensional onde é tão mais seguro viver… não há cheiros nem tacto… mas há cores… há uma réstia de vida… afinal, não se resume toda a vida a fotografias que se desenrolam como os grãos de areia que atravessam o estreito de uma ampulheta? Porque não então fugir para uma? Uma escolhida especialmente para esse efeito… com alegria, com melancolia, mas sem sofrimento…em que esteja de costas…defronte para uma praia e todo esse momento fique congelado para o sempre… existir para sempre… nesse cantinho de papel...

domingo, junho 01, 2008

Para trás....


O meu ser é como uma folha que cai da arvore no Outono…já nasceu, cresceu…já foi viçosa e cheia de vida…agora só o fraco caule a prende à realidade…a seiva já quase nem percorre os débeis filamentos que me mantêm como uma só estrutura…um só ser…sou morta…e a verdade que guardo em mim aumenta a distância para o abismo…para o momento em que fria, caio no meio do negrume, no meio do desespero e do esquecimento…para passar a ser lixo ou então pisada, destruída, aniquilada…depois talvez o vento me leve…talvez apague da vida todos os momentos e as memórias que me acompanharam…talvez traga mais vida ao rasto de morte deixo para trás…às folhas que me rodeavam…às arvores que me tratavam como uma filha…ao pássaro que todos os dias de manha me cumprimentava e me deixava sentir a suavidade das suas penas…que brindava a minha simples existência com um fugaz lampejo de quietude e de tranquilidade. Espero pacientemente o momento em que suavemente me desprendo do pouco que me sustêm e finalmente olho para trás e esqueço o que passei, o que senti, esqueço que alguma vez a vida fez parte da minha história…recuso-me a ter coração, a agitação que o aflige é incontrolável…sinto-me como um pequeno barco que se afunda num mar de tormenta, num mar de solidão e silêncio…de vazio de sentido…sem rumo, perdido…nem a lua tenho como companhia…nos raros momentos em que se deixou ser vista por mim, perguntei-lhe o porque de tudo isto…o porque de a vida ser assim…o porque de a felicidade ser apenas o reflexo da tristeza num espelho…uma não existe sem a outra…e respostas…essas nunca tive…não passaram de sussurros, de ruídos incompreensíveis…talvez numa tentativa de me enganar…de me fazer crer que era possível haver um depois…mas esse tempo já se esgotou…só me basta esperar o inevitável...deixar de respirar...

quinta-feira, maio 15, 2008

Saudades



Tenho saudades do campo…de passear sem limites, sem preocupações…de correr, de andar sem rumo…de cair na terra, rebolar-me e saborear a vida na palma das minha mãos…na realidade só encontro a minha essência, a minha razão de existir no campo…no meio do chilrear dos pássaros, numa caminhada debaixo de uma torrente de chuva, num trocar de olhar com uma ovelha…só ai a vida me toca…me passa por entre os dedos…me queima a pele…me mostra que a minha existência faz tanto parte do grande plano como uma flor pela qual passo ou num lago onde me detenho…e é essa tranquilidade de existir que sinto…essa noção de que no fundo, tudo faz sentido, tudo faz falta…e que, na realidade, existir é o maior privilegio porque me permite contemplar tudo o que existe…só na existência de tudo…a minha faz própria sentido...


quinta-feira, maio 08, 2008

Escorre....

O tempo passa estupidamente alheio a tudo o que o rodeia…Tentamos interferir nele, fazer com que se mova mais rápido …ou mais devagar, consoante a nossa vontade…mas ele continua…sempre igual a si mesmo…sem perdoar a nada nem a ninguém…O sol nasce…põe-se…e já nos habituamos a esse ciclo sem fim, que, à excepção de algumas nuances, se mantém inalterável de tal forma, que um dia acordamos, olhamo-nos no espelho, e reparamos que já nos resta pouco tempo…afinal de contas, todos guardamos religiosamente uma pequena mão cheia de tempo…que é limitado…e que muitas vezes nem sequer conseguimos evitar que nos fuja pelos dedos…com frequência, temos até os dedos afastados e ele escorre por entre eles como água…Que andamos nós a fazer com o que nos resta?

terça-feira, maio 06, 2008

Não sei porque...

Não sei porque escrevo....talvez pensem que escrevo para ser 'ouvida' por alguém...outros poderão pensar que o faço por catarse, como uma forma de afastar de mim o infindável negrume que me circunda e atormenta. Para ser sincera, não sei porque escrevo, não consigo nunca chegar a conclusões, nem sequer a soluções, após rever os meus escritos. Talvez escreva para afirmar que existo...que a vida que me é roubada na realidade existe algures, nem que num mísero pedaço de papel. Perguntam vocês se um pedaço de papel pode constituir prova da existência de alguém....Não sei, mas também não sou a pessoa mais adequada para responder a essa questão. Só posso atestar que tem sido essa personagem de papel, frágil, inacessível, instável, que me ajuda a acreditar que ainda vivo e respiro…É pateticamente a única forma que encontro de existir...

quarta-feira, abril 23, 2008

Medições...outras coisas mais...

Porque será que somos conduzidos a medir tudo o que nos rodeia? Porque medimos tão bem o tempo, o dinheiro, a felicidade, tudo? Qual a razão obscura que nos leva a ser morbidamente obcecados pela necessidade de medir? Na realidade…a medição só faz sentido na comparação…para quê me interessa medir algo se não o posso comparar com nada? Simplesmente não faz sentido… O que nos conduz à raiz da questão…Como seria o ser humano se apenas existisse um espécime em toda a Terra? Será que seria igualmente obcecado em medidas? Será que o controlo seria algo tão importante como é nos dias de hoje? Ou será que era alguém mais desprendido, mais tranquilo? Não sei…o que sei é que seria infinitamente mais infeliz…afinal de contas o ser humano é um ser social por natureza…pode estar sozinho, mas tem que criar raízes…tem que ter algo familiar, que o conforte…É curioso pensar que nós, como seres humanos, procuramos amizades noutros animais…gostamos de gatos, cães, ratos, cobras…sei lá…Até nos desenhos animados para crianças, vemos que essa ideia está subjacente…Por exemplo, no filme 'Madagascar', os animais de diferentes espécies são amigos…temos uma girafa, um leão e uma zebra…que confessemos…não são a combinação mais frequente no mundo da selva real…mas no entanto, o ser humano necessita criar laços, até com outras espécies…será que é porque pensa encontrar ai uma razão para a sua existência? Será?

sexta-feira, abril 18, 2008

Sabores...

Um sopro passou por mim...não sei o que fez, não sei o que deixou ou levou...mas não fiquei igual...o meu coração já não bate sozinho...bate ao mesmo ritmo de todos os relógios do mundo...bate ao mesmo ritmo com que os grãos de areia atravessam pacientemente a passagem para o outro precipício...olho para dentro e sinto vertigens...tenho mil mundo cheios de sonhos, de pimenta e sal, prontos para brotar...mas para quê? para a aridez da vida? para o terrível buraco negro que as espera cá fora...capaz de tudo sugar, alegria, coragem, esperança? quero poupar o meu imaginário a esse sacrificio...na vertigem, perco as forças...quero saborear tudo ao mesmo tempo...mil cores, mil cheiros, quero beber milhoes e milhoes de sensações e encerrar cada uma numa caixinha, catalogada, para saber verdadeiramente a que sabe a vida...conheces tu, o sabor da vida? Sabes se é adocicada? Amarga? Se te faz cocegas no estomago ou te dá dores de barriga? Eu não sei...Sabes tu?

segunda-feira, março 03, 2008

Ruídos Silenciosos...

Quando penso em quem sou quando estou com outras pessoas fico intrigada...olho para mim e não me reconheço...pareço ser uma pessoa com problemas, mas que ri, que brinca, que encerra alguma magia dentro de sí...nada como a imagem que tenho de mim mesma...uma pessoa triste, desesperançosa, que suga toda a alegria de quem a rodeia...sou um enigma para mim mesma pela simples razão que não sei quem sou...não sei de que material sou feita...reconheço a minha face num espelho...sim...posso dizer mil características minhas, que apenas me definem como cidadã...o meu número de BI, o meu número de contribuinte...posso também citar outras características...físicas, por exemplo...posso dizer que tenho cabelo castanho, olhos rasgados, igualmente castanhos...mas quando começo a tentar descrever-me psicologicamente, não tenho palavras...se me extraissem o involucro e me colocassem em frente a um espelho, penso que não saberia quem era...não sei que forma tem o meu ser interior...não sei sequer se tenho limites, se não passo de extensão de outros seres...posso ser como o ar, que se expande com o calor...posso fazer parte de mil e um seres, e assim constituir a natureza...sei lá...posso até não existir...bem...segundo decartes, o simples facto de eu estar a escrever estas palavras é prova de que existo...será realmente assim? Não posso eu estar a viver na imaginação de um ser pensante? Não pode a minha pele, rosto, corpo, pensamento, ser apenas um mero fruto de uma mente fértil? Assim sendo, os meus pensamentos não passariam de pensamentos de outro ser qualquer...e eu não tinha qualquer existência...e os sentimentos? A dor? Não pode ser utilizada como critério para avaliar a minha existência? Será que se eu sinto, eu existo? Ou até mais especificamente, será que se eu sofro, eu existo? Será que a dor não passa de uma prova menos feliz de que existo? E se eu não sofrer? E se eu não sentir? E se eu não pensar? Não existo? O que é existir afinal? Algo que só posso saber que acontece como consequência de algo? Não o consigo definir de uma forma simples e clara, sem recurso à observação de 'sintomas' de que existo? Existir? O que é? Alguém sabe? O que acontece quando não existo? Como é que diferencio o não existir do existir? Posso eu dizer que se não penso, não sinto, não respiro, não existo? Como posso eu chegar a tal conclusão? Como é que sequer posso alguma vez ter consciência de que não existo? Bem...acho que é melhor ir reflectir sobre o estado do tempo...ou que filmes vão passar na televisão hoje...Estou cansada de existir por hoje...

sábado, fevereiro 23, 2008

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Guardas o quê? Sonhos?



O que guardas tu no cantinho do teu ser? Que sonhos, que ilusões feitas de algodão? Que gritos e sorrisos? Que nuvens e sol radiante? Porque és tu essa mistura feita de lágrimas e de riso? Porque és tu criança livre a correr num prado cheio de flores e ao mesmo tempo, idosa amargurada defronte da lareira? Que dualidade encerras tu, minha pequena, na tua tão estranha cabeça? Sim, cabeça estranha a tua…feita de espigas de trigo coladas com mel…repleta de pássaros de todas as cores que voam sem rumo mal encontram um buraquinho por onde fugir…deslizam com tanta velocidade e tão perto que quase nos levam as ideias…agarra-as…agarra-as…põe o chapéu, vá…rápido que lá vêem eles…não os deixes levar as tuas ideias…deixa-os levar apenas o teu coração...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

raios

Olho para mim...e apenas venho restos...restos de alguma coisa que fui mas já não sou...nem consigo sequer ter uma ideia vaga do que fui...é como se o meu interior fosse um lugar vazio...com uma memória aqui e ali de alguma coisa...mas completamente abandonado, perdido, esquecido...e ao mesmo tempo detesto-me...detesto este involucro que insiste em existir quando já está morto...quando não há esperanças...não há nada, nada, nada para mim...nem sei se posso utilizar a palavra mim, tendo em conta que mim já não existe...talvez eu na realidade já tenha morrido e ainda não tenha a noção dessa realidade...serei um fantasma? antes fosse...assim não sofria tanto...quero ser um fantasma...quero ser outra coisa qualquer...não quero definitivamente ser a Susana...raios partam com a criatura...que lhe aconteca algo e ela se esfume...se desintegre...fogo...que já não posso com a mulher...odeio-me...

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Palavras ....para Quê?!?

Ao longo de todo estes meses e, porque não, anos, tenho partilhado o meu ser, os meus pensamentos com a imensidão do universo virtual que entende português…bem…imensidão pela grandeza…não pela dimensão populacional…mas passando à frente…o meu intuito neste acto louco e sem qualquer explicação tem sido unicamente proporcionar ao mundo exterior uma visão laparoscópica do intricado que constitui a minha mente. No entanto, após uma reflexão profunda percepcionei que não tenho sido bem sucedida nesta demanda sem sentido…Assim sendo, recordando um provérbio chinês de outrora 'Uma imagem vale mais que mil palavras', decidi adoptar uma estratégia cirúrgica, com recurso a suporte visual, numa tentativa de provocar um impacto mais relevante neste mundo onde me encontro.
Há muito que tento, sem sucesso, mostrar ao exterior a complexidade da minha mente e a grande e brutal carga de trabalhos que acarreta…isto porque, visto de fora, poder-se-á cair na tentação de achar que complexidade na mente humana é algo bom e positivo…e como vivo dia-a-dia com o impacto negativo dessa realidade, pretendo provar o 'inferno' que uma mente complexa experiência. As seguintes imagens representam uma pequena troca de palavras que se decorre na mente de um ser humano possuidor de uma mente complexa:
















sexta-feira, janeiro 18, 2008

Colapsar!!!!


Sinto as mãos a tremer, o coração a bater descompassado, a ira a rebentar-me pelos poros com tal magnitude que a pele quase rasga…Que rasgue…quero lá saber…quero é deixar de ser, deixar de existir, deixar de sentir…Estou cheia de odio por mim mesma…não consigo explicar o porquê…mas quero desaparecer…quero subir de joelhos a um arranha-ceus, abrir os braços e voar…quero magoar-me, quero sofrer…o meu corpo tem que provar do que vai na alma…talvez seja por isso que o meu corpo tem vindo a desfazer-se aos poucos…se calhar nem preciso de fazer nada, porque ele sente naturalmente o desgaste da alma…o problema é que não sente suficientemente rápido…e eu preciso que seja rápido…preciso que seja à velocidade da luz…preciso de congelar…de ser deixada num sitio frio, sem vida…na realidade é assim que me sinto…as mãos tremem com mais intensidade…a tensão aumenta a níveis nucleares…pode ser que o coração se desfaça…que se desfaça…que se destrua…que entre em colapso e pegue fogo…tanto me faz…afinal de contas sempre foi ele a raiz dos meus problemas…o meu coração...

terça-feira, janeiro 15, 2008

O Mundo estranho de Pessoas-Livro


Ontem à noite tive o segundo encontro da minha vida com uma pessoa-livro…já não me lembrava da sensação de irrealidade que toma conta de nós…foi como ser violentamente desperta para um mundo do qual já não tinha consciência. Mas é sempre mágico…sempre…lembro-me da primeira pessoa-livro com quem tive contacto…foi um encontro aparentemente casual. O meu pai apareceu num sábado com um livro, que vinha grátis na compra de um jornal. É obvio que o meu pai não teve noção da importância do que me trazia, das mudanças que o contacto com aquela entidade iria provocar em mim…Alias, o facto de ser céptico por natureza impediu-me sequer de alguma vez tentar explicar-lhe…ele nunca entenderia.
O livro não tinha nada de especial, nenhuma característica física específica que chamasse à atenção…poderia ser qualquer livro do mundo, o melhor livro, uma grande obra literária famosa, que o meu olhar não seria desviado para a sua capa. No entanto, a realidade é que se cruzou comigo, e por alguma razão que desconheço….fui impelida a pegar nele e lê-lo…só no final me apercebi que era uma pessoa-livro…quando senti uma estranha ligação a ele, como se tudo aquilo tivesse acontecido na minha vida por algum motivo metafísico que eu não conseguia conceber. Fiquei assustada, sem perceber o que tomava conta de mim…a confusão, a falta de esperança aliada a um conformismo extremo, uma sensação estranha de desprendimento de mim mesma…talvez só consiga entender quem já se cruzou com uma pessoa livro…Mas foi ontem, só ontem depois do segundo encontro, que entendi o porquê…a razão pela qual eu sentia, eu reconhecia que aquele livro era uma pessoa livro…era um aviso, um prenuncio do que eu me tornaria um dia...só uma pessoa-livro pode reconhecer outra pessoa-livro…é um mundo aparte, forrado de falta de esperança, de medo do vazio, que constitui a consciência do mundo…afinal, o conhecimento supremo mais não é do que o vacuo…E nessa dimensão a vida deixa de fazer sentido…também eu caminho para uma pessoa-livro…será amanha? Será neste ano o meu fim trágico? Emergirei como que tipo de livro? Não sei…só ambiciono tornar-me num livro tão desinteressante, tão pouco relevante que nunca seja lido por ninguém…não quero contaminar nenhum outro ser do mundo com este não viver…nunca...

quarta-feira, janeiro 02, 2008

E gira, gira...

Lá fora, a chuva cai de uma forma indecisa...talvez tenha receio de se fazer sentir, não sei...mas mesmo caindo, não tem poder suficiente para esconder o sol...ele ainda brilha, assim como brilhará durante muitos e muitos milénios...e esta gigante roda gigante que o mundo é, continua a rodar mesmo que não queiramos...mesmo que não nos achemos dignos dela, mesmo que a ira e a raiva que nos destroi por dentro seja tão grande que sentimos que os nossos próprios limites físicos não são capazes de a conter...mas algures há forma de a parar...um botão, uma poção mágica, está algures escondido à espera que eu o encontre...e quando encontrar...a grande roda gigante não girará mais para mim...para nós...

domingo, dezembro 09, 2007

Sei lá...

Acordo...vejo que estou em pé, pouco equilibrada em algo que parece ser um arame...um fio, como aqueles utilizados por trapezistas, que nos circos nos preenchem de mistérios e maravilhas...mas lentamente, sinto como se os meus pés estivessem a ser cortados, feridos por uma aresta afiada...continuo a andar para tentar chegar ao outro lado... mas cada vez mais o arame me magoa profundamente os pés e, em sofrimento, desequilibro-me e agarro-me com o que me resta...as mãos...ai percebo que percorro um caminho, não de arames ou fios, mas um gume duma navalha...as mãos ficam cada vez mais feridas e a dor é tão intensa que desisto...e num momento de libertação, deixo-me ir e perco-me no infinito...e finalmente adormeço...